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EXCELÊNCIA
NA RELAÇAO CUSTO-EFETIVIDADE.
RAZÃO ADICIONAL PARA INDICAÇÃO DE REABILITAÇÃO
CARDÍACA.
Dr.
Salvador Serra
Por ser uma
das mais importantes causas de morte e incapacidade física,
social, psicológica e laborativa, a doença cardiovascular
tem merecido a aplicação de elevados recursos financeiros
que, quase sempre, são incapazes de atender às necessidades
globais de realização de exames complementares diagnósticos
complexos e de alguns procedimentos terapêuticos, sejam
eles invasivos ou não.
A avaliação
custo-efetiva de um procedimento tem sido utilizada comparativamente
a valores de outros procedimentos, considerando o custo necessário
para salvar uma vida em um ano. Como referência, é
considerado como excelência em custo-efetividade, valores,
em dólares norte-americanos, inferiores a $20.000. Entre
$20.000 e $40.000 considera-se consistente com as intervenções
habituais. Acima de $40.000 é indicativo de pobre relação
custo-efetividade1.
Doença
coronária
Estudos de
acompanhamento de pacientes em programas de reabilitação
com inclusão de exercícios físicos mostram
modificações benéficas nos fatores de risco
e em algumas outras condições favorecedoras da áterotrombose.
Alguns trabalhos concluem que esses programas reduzem a morbidade
e a mortalidade cardiovascular e, quase todos, após alguns
meses, indicam aumento no V(*)O2 do pico do esforço, principalmente
nos pacientes inicialmente mais limitados funcionalmente2. Entretanto,
apesar disso, pouco é relatado quanto a relação
custo-efetividade potencial em longo prazo desta modalidade de
tratamento.
Trabalho utilizando
um modelo estabelecido para a avaliação de expectativa
de vida e de doença cardiovascular entre indivíduos
de 35 a 74 anos, aplicando-se o Cardiovascular Disease Life Expectancy
Model3, estimou o impacto do treinamento com exercício
físico em algumas variáveis. Obteve-se redução
do LDL-colesterol em 4%, elevação do HDL-colesterol
em 5% e diminuição da pressão arterial sistólica
e diastólica em 6 mm Hg. A aderência ao programa,
respectivamente para o primeiro e segundo anos, foi estimada em
50% e 30%4.
Ao considerar
um índice de aderência ao programa de exercícios
físicos incluído em programas de reabilitação
de 100%, o estudo estabelece a custo-efetividade em dólares
norte-americanos, ou seja, o valor pecuniário investido
para cada vida salva em um ano de acordo com o gênero, a
faixa de idade e a condição da supervisão.
Foi também considerada a presença ou não
de doença cardiovascular (tabela 1)4.

A análise desses dados sugere que treinamento com exercício
físico como intervenção primária e
secundária de doença cardiovascular é custo-efetiva
considerando uma aderência adequada ao programa. Inexistindo
absenteísmo, um programa não supervisionado pode
efetivamente salvar vidas e economizar custos. Um programa supervisionado,
obviamente mais dispendioso financeiramente que o sem supervisão,
é também considerado altamente custo-efetivo para
a grande maioria dos pacientes com doença cardiovascular.
Ao se avaliar
uma aderência ao programa em 50% e 30% após um ano
e 5 anos, respectivamente, condições estas consideradas
mais realistas, persiste uma ótima relação
custo-efetividade para homens com doença cardiovascular,
seja com supervisão ou, principalmente, sem supervisão.
Os benefícios
potenciais do treinamento com exercício físico no
que tange a expectativa de vida nas mulheres são menores
que nos homens, tendo em vista a semelhança na idade e
na condição da doença. Assim, considera-se
que exercício supervisionado para elas é somente
custo-efetivo entre os 55 e 74 anos. Entretanto, o exercício
não supervisionado possui excelente custo-efetividade em
todas as mulheres com doença cardiovascular e nas mais
jovens sem doença cardiovascular.
Esses resultados,
que efetivamente estabelecem uma relação custo-efetividade
favorável à aplicação da reabilitação
cardíaca na doença coronária, foram semelhantes
àqueles obtidos por Ades e colaboradores5. Neste estudo,
a utilização de várias fontes de dados em
sua metodologia mostrou um custo de US$ 4.950 por cada vida salva
por ano, o que, mais uma vez, torna evidente a eficiência
da reabilitação no tratamento de pacientes com coronariopatia.
Insuficiência
Cardíaca Crônica
Há cerca de uma década os efeitos do exercício
físico inserido nos programas de reabilitação
de pacientes com insuficiência cardíaca crônica
foram firmemente estabelecidos em vários estudos clínicos
randomizados.
Os programas
de reabilitação aplicados a esses pacientes aumentam
a capacidade de realizar exercício, reduzem a atividade
autonômica simpática e elevam o tônus vagal,
melhoram a função do endotélio e da musculatura
esquelética, além de interferirem favoravelmente
na qualidade de vida, na morbidade e na mortalidade.
Embora o exercício
físico esteja recomendado no tratamento da maioria dos
pacientes com insuficiência cardíaca crônica
estável, deve ser estabelecido se este procedimento, que
quase sempre aumenta o V(*)O2 pico, melhora a classe funcional
e a qualidade de vida é, além disso, também
custo-efetivo.
Estudo controlado
e randomizado, com seguimento de pacientes com insuficiência
cardíaca crônica de classes funcionais II e III durante
14 meses, com idade entre 55 e 64 anos, mostrou um incremento
na expectativa de vida de 1,82 ano nos pacientes em reabilitação
cardíaca que realizaram exercício físico
quando comparados ao controle. Este benefício foi alcançado
com o custo estimado em US$1.773 por vida salva ao ano1.
Portanto,
com base nesses resultados, a atividade física inserida
em programas de reabilitação cardíaca deve
ser entendida como procedimento de excelente relação
custo-efetividade para o tratamento da insuficiência cardíaca
crônica. Estas conclusões assemelham-se ao que apontam
os estudos que avaliam os programas de reabilitação
em pacientes com doença arterial coronária.
Interpretação pessoal
A despeito
do expressivo crescimento tecnológico, há evidências
que a procura desenfreada pela aquisição de equipamentos
ou a aplicação de procedimentos ainda mais recentes
e cada vez mais sofisticados devam ser acompanhadas da utilização
de meios terapêuticos, cientificamente respaldados, que,
efetivamente, possibilitem prevenção das cardiopatias
e melhoria na qualidade de vida com redução da morbi-mortalidade.
A excelente relação custo-efetividade dos programas
de reabilitação cardiovascular torna ilógico
o número insignificante desses serviços no Brasil,
em particular na rede pública. Mesmo nos Estados Unidos
o índice de pacientes em reabilitação cardíaca
é pequeno, alcançando menos de 60% dos casos de
fase I pós-infarto agudo do miocárdio, sendo idosos
e mulheres encaminhados em proporção ainda menor6.
Em nosso país,
sem estatísticas confiáveis nesta área, podemos
estimar em menos de 5-10% o percentual de pacientes que teriam
indicação de reabilitação cardíaca
e que efetivamente dela participam, independentemente da fase
em que o paciente estaria inserido.
A reabilitação
cardiovascular deve ser vista como prioridade ao atendimento ao
cardiopata e àqueles com potencialidade de desenvolver
doenças cardíacas. O avanço na Cardiologia
não deve ser definido pela aquisição do último
aparelho da ponta tecnológica que, quase sempre, estará
em evidência na mídia médica ou leiga e que
será útil, também quase sempre, para um número
insignificante de pacientes.
Cabe perguntar:
quantos serviços de hemodinâmica e cirurgia cardíaca
existem na sua região e quantos são os serviços
de reabilitação cardíaca nela existentes?
Certamente, os dois primeiros suplantam, largamente, os últimos.
Esta condição paradoxal, por si demonstra a escolha
prioritária por tratamentos menos custo-efetivos.
Constituirá
enérgica contribuição ao avanço cardiológico
o empenho para que as doenças cardiovasculares sejam inibidas
drasticamente em sua incidência e que, para tanto, utilizemos
opções de tratamento efetivas e universais, sempre
visando qualidade de vida, redução real da morbidade
e da mortalidade para a imensa maioria dos nossos pacientes, tudo
isso obtido com eficiência e custo reduzido.
Essa seria,
verdadeiramente, a competente Cardiologia de ponta, passível
de ser obtida com a multiplicação dos programas
estruturados e multifacetados de reabilitação cardiovascular,
principalmente quando ela se basear na informação
aos pacientes e na aplicação regular de exercícios
físicos.
Certamente
a literatura oferece, amplamente, respaldo para estas nossas ponderações.
Acredito, portanto, restar apenas nossa conscientização
e a efetiva aplicação aos pacientes.
Referências
bibliográficas:
1. Georgiou
D, Chen Y, Appadoo S, Belardinelli R, Greene R. Cost-effectiveness
analysis at long-term moderate exercise training in chronic heart
failure. Am J Cardiol 2001; 87: 984-988
2. Serra S,
Loos L. Programa de reabilitação cardíaca
aplicado a pacientes com doença coronária crônica.
Rev SOCERJ 1993; 6: 120-125.
3. Grover
AS, Paquet S, Levinton C, Coupal L, Zowall H. Estimatting the
benefits of modifying cardiovascular riskfactors: A comparison
a primary versus secondary prevention. Arch Intern Med 1998; 158:
655-662
4. Lowensteyn
I, Coupal L, Zowall H, Grover AS. The cost-effectiveness of exercise
training for the primary and secondary prevention of cardiovascular
disease. J Cardiopulm Rehabil 2000; 20: 147-155.
5. Ades PA,
Pashkow FJ, Nestor JR. Cost-effectiveness of cardiac rehabilitation
after myocardial infarction. J Cardiopulm Rehabil 1997; 17: 222-231.
6. Spencer
FA, Salami B, Yarzbski J, Lessard D, Gore JÁ, Goldberg
RJ. Temporal trends and associated factors of impatien cardiac
rehabilitation in patients with acute myocardial infarction: a
community-wide prespective. J Cardiopulm Rehabil 2001; 21: 377-384.
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