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CONDICIONAMENTO
FÍSICO E PRÉ-CONDICIONAMENTO ISQUÊMICO. FENÔMENOS
DIFERENTES, EFEITOS FAVORÁVEIS DIFERENTES, MANEIRAS SEMELHANTES
DE OBTENÇÃO.
Habitualmente,
os indivíduos que iniciam programa regular de exercícios
físicos, sempre que adequadamente estruturados e com prescrição
baseada em duração, intensidade, freqüência
e progressão, logo após algumas poucas semanas,
passam a tolerar melhor os esforços e a condição
física se aprimora.
Através
deste processo, o indivíduo adquire melhoria do seu condicionamento
físico e, em conseqüência, modificações
favoráveis são obtidas na anatomia e funcionalidade
muscular esquelética e miocárdica, no aumento da
massa corporal magra, na redução dos fatores de
risco cardiovascular, no equilíbrio autonômico e
perfil psicológico, além de outros benefícios.
É o condicionamento físico promovendo o estado de
saúde do indivíduo.
Entretanto,
mais recentemente, um outro tipo de condicionamento, ou melhor,
pré-condicionamento, tem sido muito valorizado em decorrência
do seu efeito protetor de complicações durante o
infarto agudo do miocárdio (IAM).
Vários
estudos têm mostrado que após apresentar episódios
sucessivos e antecipados de isquemia miocárdica, particularmente
quando identificados por angina de peito, alguns indivíduos
que posteriormente acabam evoluindo para o IAM têm a sua
evolução mais satisfatória quando comparados
aos pacientes que apresentam IAM com características semelhantes,
porém não antecedidos de quadros anginosos. A este
fenômeno se denomina pré-condicionamento isquêmico.
Esta resposta
benéfica, e ao mesmo tempo paradoxal, considerando-se erradamente
que seria mais provável suspeitar que anginosos crônicos
tendessem a ter um prognóstico pior que os assintomáticos,
foi mostrada também no estudo TIMI-4, cujos resultados
não mostraram limitação dos efeitos favoráveis
do pré-condicionamento isquêmico para nenhuma faixa
etária, nem mesmo em idosos. Este subgrupo de pacientes
com pré-condicionamento isquêmico, apresentou as
complicações do IAM consideradas mais graves (morte,
choque e re-infarto) em proporção significativamente
menor que os também idosos que não apresentaram
angina pré-infarto (11% vs 23%, respectivamente; p = 0,04)
(1).
O grau de
atividade física habitualmente realizado por estes pacientes
acima de 65 anos que foram acompanhados no TIMI-4 não foi
avaliado e, portanto, não se sabe se aqueles idosos poderiam
ter se beneficiado de exercícios físicos para serem
obtidos aqueles resultados favoráveis. Esta dúvida
é pertinente, pois vários trabalhos têm mostrado
que o benefício do pré-condicionamento isquêmico
não se aplicaria aos indivíduos com idade superior
aos 60 anos.
Estudo de
Abete et al (2), publicado recentemente, mostrou que os indivíduos
idosos que realizam exercícios físicos de elevado
nível, obtém redução da mortalidade
pós-IAM não em decorrência exclusiva do pré-condicionamento
isquêmco e sim motivada principalmente pela própria
atividade física que realizam. Entretanto, estes idosos
ativos, adicionalmente, e justamente por serem ativos, adquiriram
também o efeito protetor promovido pelo pré-condicionamento
isquêmico do miocárdio.
Outro estudo,
também publicado em novembro de 2001, de origem holandesa
(3), mostrou que entre os 72 pacientes internados com IAM e que
foram acometidos e sobreviveram a fibrilação ventricular
(FV) desencadeada fora do ambiente hospitalar previamente à
internação, 14% apresentaram angina pré-infarto,
enquanto entre o grupo de infartados que não apresentaram
FV o índice de anginosos prévios foi de 29% (p =
0,02). Mostrou-se portanto, um efeito do pré-condicionamento
isquêmico na prevenção da fibrilação
ventricular secundária ao infarto agudo do miocárdio.
Segundo Kloner
(4), curtos episódios de isquemia tornariam o miocárdio
mais resistente a posterior isquemia intensa e prolongada, o que
seria obtido através de séries complexas do segundo
mensageiro, culminando com a ativação de um efetor
final que se acredita ser um canal KATP mitocondrial.
Outras alternativas
para explicar os efeitos favoráveis do pré-condicionamento
isquêmico passam pelo possível aumento da colateralidade
da rede coronária, assim como uma maior produção
de adenosina liberada durante os episódios anginosos, promovendo
desta forma um efeito de inibição da agregação
plaquetária (5).
Por outro
lado, embora tradicionalmente a intensidade dos exercícios
preconizada para os pacientes coronariopatas seja de grau moderado,
algumas reflexões têm sido produzidas recentemente
por alguns autores.
Primeiramente,
dentro da linha de raciocínio do papel efetivamente importante
do pré-condicionamento isquêmico no melhor prognóstico
do IAM, alguns pesquisadores afirmam ser considerável entender
que o exercício físico possa representar um veículo
para a promoção do próprio pré-condicionamento,
pois a realização, em curto prazo, de um segundo
teste ergométrico após um primeiro teste isquêmico,
freqüentemente se observa naquele uma redução
ou mesmo desaparecimento da isquemia miocárdica em relação
ao primeiro teste(6).
Simultaneamente,
sabe-se que doses endógenas e exógenas de catecolaminas
parecem mimetizar o fenômeno do pré-condicionamento
isquêmico (7). Ora, diante da compreensão desses
fenômenos e do significado do pré-condicionamento
no prognóstico do IAM, Thompson recentemente elaborou três
observações que merecem ser ao menos passíveis
de reflexão (8):
1. O exercício
físico deve ser freqüente e sustentado, pois os seus
efeitos são transitórios.
2. Os benefícios
do exercício podem ser obtidos somente pelos pacientes
com isquemia durante o esforço, considerando que somente
nesta condição se experimentaria este fenômeno
e tal adaptação.
3. Quando
não há isquemia o exercício deve ser intenso
o suficiente para elevar os níveis de catecolaminas a ponto
de provocar o efeito do pré-condicionamento.
Há
vários anos, com o objetivo de aumentar a rede colateral
coronária, tem sido preconizada a prescrição
de exercícios de maior intensidade, inclusive em presença
de isquemia miocárdica. Talvez hoje outros argumentos possam
se somar para a aplicação de exercícios mais
vigorosos para aqueles e para outros cardiopatas e indivíduos
saudáveis. Há que se procurar artesanalmente prescrever
de maneira individualizada a intensidade do esforço, principalmente
para os pacientes de risco potencial maior. Não se deve,
entretanto, desprezar a perspectiva de que efetivamente o exercício
físico pode apresentar efeitos adicionais através
de dois tipos de condicionamento, o físico e o de adaptação
à isquemia miocárdica, ambos potencialmente muito
favoráveis, em particular, ao paciente coronariopata.
Referências bibliográficas:
1. Kloner
RA Przyklenk K, Shook T, Cannon CP. Protection conferred by preinfarct
angina is manifest in the aged heart: evidence from the TIMI-4
trial. J Thromb Thrombolysis 1998; 6: 89-92.
2. Abete P,
Ferrara N, Cacciatore F et al. High level of physical activity
preserves the cardioprotective effect of preinfaarction angina
in elderly patients. J Am Coll Cardiol 2001; 38: 1357- 1365.
3. Gheeraert
P, Henriques JPS, De Buyzere ML, De Pauw M, Taeymans Y, Zijlstra
F. Preinfarction angina protects against out-of-hospital ventricular
fibrilation in patients with acute occlusion of the left coronary
artery. J Am Coll Cardiol 2001; 38: 1269-1274.
4. Kloner
RA. Preinfarction angina and exercise: yet another reason to stay
physically active. J Am Coll Cardiol 2001; 38: 1366-1367.
5. Hata K,
Whittaker P, Kloner RA, Przyklenk K. Brief antecedent ischemia
attenuates platelet-mediated trombus in damaged and stenotic canine
coronary arteries: role of adenosine. Circulation 1998; 97: 692-702.
6. Maybaum
S, Ilan M, Mogilevsky J et al. Improvement in ischemic parameters
during repeated exercise testing: a possible model for myocardial
preconditioning. Am J Cardiol 1996; 78: 1087-1091.
7. Bankwala
Z, Hale SL, Kloner RA. Alpha-adrenoceptor stimulation with exogenous
norepinephrine or release of endogenous catecholamines mimics
ischemic preconditioning. Circulation 1994; 90: 1023-1028.
8. Thompson
PD. Exercise rehabilitation for cardiac patients. A beneficial
but underusde therapy. Physic Sports Med 2001; 29: 62-71.
SALVADOR SERRA
sserra@cremerj.com.br
Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro - RJ
Hospital Pró-Cardíaco - RJ
Presidente do DERCAD/RJ - SOCERJ
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