TRABALHO CIENTÍFICO EM DESTAQUE - II

Incidência e significado da depressão isquêmica do segmento ST registrada exclusivamente na fase de recuperação do Teste Ergométrico

(Soto JR, Watson DD, Beller GA. Incidence and Significance of Ischemic ST-Segment Depression Occurring Solely During Recovery After Exercise Testing. Am J Cardiol 2001; 88: 670-672)


Habitualmente, durante um esforço de intensidade progressiva, quando a demanda miocárdica por oxigênio encontra-se aumentada, a presença de moderada a importante doença obstrutiva das artérias coronárias quase sempre revela alterações eletrocardiográficas de natureza isquêmica. Entretanto, de maneira paradoxal, em muitos testes ergométricos somente na fase de recuperação pós-esforço surgem alterações isquêmicas no eletrocardiograma.

Auxiliando a interpretar uma dúvida que segundo estes autores está presente em 3% dos testes ergométricos, Soto e colaboradores estudaram as alterações isquêmicas eletrocardiográficas de aparecimento somente no pós-esforço, tentando identificar possível concomitância da depressão do segmento ST com um defeito reversível de perfusão miocárdica através da tomografia com emissão de positron (SPECT) com sestamibi-Tc-99m durante a fase de recuperação pós-esforço.

De 566 pacientes inicialmente selecionados, 460 (81%) não apresentaram alterações no eletrocardiograma ao esforço ou na recuperação. Destes, 331 (72%) o SPECT foi normal (p < 0,0001).

Oitenta e nove pacientes apresentaram depressão isquêmica de ST durante o esforço e destes 64 (72%) apresentaram defeitos reversíveis ao SPECT (p < 0,0001).

Dezessete pacientes exibiram depressão de ST somente na fase de recuperação, ou seja, 3% do total da população ou 16% dos pacientes que apresentaram infradesnível de ST durante o exercício ou na recuperação. Destes 17 pacientes, 11 (65%) mostraram sinais de isquemia ao SPECT (p < 0,002). Não houve diferença significativa (p = 0,57) entre as proporções de anormalidades do SPECT quando as alterações de ST ocorreram durante ou após o esforço.

Embora os 89 pacientes com depressão de ST durante o esforço apresentassem características similares aos 17 que deprimiram o ST somente na fase de recuperação, estes últimos, em relação aos primeiros, tinham maior percentual de história de angina (94% vs 65%, p = 0,01) e uma maior tendência, embora sem obter diferença estatística, a menor tolerância ao esforço no mesmo protocolo (7 ± 3 vs 8 ± 3 minutos) e a menor fração de ejeção ventricular esquerda (54 ± 9% vs 57 ± 6%).


Interessantemente, o grupo com defeitos reversíveis de perfusão pelo SPECT que apresentavam depressão de ST somente na fase pós-esforço tiveram significativamente menor freqüência cardíaca de pico, menor duplo produto máximo e menor fração de ejeção ventricular esquerda em repouso, comparando aos que não apresentaram SPECT alterado.

Finalmente, destaca-se que entre os 11 pacientes com depressão de ST somente na recuperação com defeitos cintigráficos reversíveis, 7 submeteram-se a estudo angiográfico coronariano e em apenas um (mulher de 43 anos) era normal.

Embora em tema-livre originário do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, de São Paulo, apresentado durante o LVI Congresso da Sociedade Brasileira de Cardiologia, realizado em setembro de 2001, em Goiânia, Cavalcanti e co-autores de maneira semelhante procurassem prospectivamente identificar o valor preditivo do infradesnível de ST pós-esforço utilizando a cintigrafia de perfusão miocárdica com MIBi-Tc-99m tenha mostrado que nesta condição o infradesnível do segmento ST não estaria associado com isquemia miocárdica, o artigo de Soto e co-autores conclui que a depressão do segmento ST, registrada exclusivamente durante a fase de recuperação, constitui um achado relevante porque a prevalência de isquemia pelo critério do SPECT foi comparável àquela depressão do segmento ST registrada durante a realização o período efetivo de esforço.

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