ENTENDENDO FISIOLOGIA DO EXERCÍCIO,
COM O ESPECIALISTA

Tema: Limiar anaeróbio

Entrevista científica com o Prof. Dr. Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega*

*Especialista em Medicina Desportiva e Cardiologia; Mestre e Doutor em Fisiologia; Research Fellow em Cardiologia - University of Texas at Dallas. Professor Adjunto do Depto. de Fisiologia e Farmacologia, Coordenador do Laboratório de Ciências do Exercício e Sub-Coordenador do Mestrado em Cardiologia da Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ.


A Fisiologia do Exercício é a base para o conhecimento qualificado da prática da Ergometria, da Reabilitação Cardíaca e da Cardiologia Desportiva. Com o intuito de atender à demanda por conhecimento de alguns temas essenciais e de aplicabilidade na prática, perguntas sobre pontos básicos da Fisiologia do Exercício considerados de importância universal na Cardiologia são respondidas com extrema clareza e atualidade pelo Prof. Dr. Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega.


CEx - DERCAD/RJ è 1. Como definimos atualmente o limiar anaeróbio?

Muito embora o termo limiar anaeróbico possa sugerir que exista uma determinada intensidade de exercício progressivo à partir da qual inicia-se abruptamente a participação do metabolismo anaeróbico de ressíntese de ATP, a transição do predomínio aeróbico para aneróbico ocorre de forma progressiva. Assim sendo, o limiar anaeróbico não define o início da anaerobiose durante o exercício, mas o ponto a partir do qual a capacidade de remoção do lactato do organismo é ultrapassado pela taxa de formação deste composto. Apesar do mecanismo exato responsável por este fenômeno ainda ser controverso, as conseqüências são, além do acúmulo de lacto, acidose muscular com dor em queimação local e alterações respiratórias como aumento mais acentuado da eliminação de CO2 e da ventilação pulmonar

CEx - DERCAD/RJ è 2. Seria correta essa denominação de "anaeróbio"?

Como descrito acima, o termo limiar anaeróbico, ou limiar aeróbico como preferem alguns pesquisadores, podem sugerir um fenômeno que não ocorre fisiologicamente. Entretanto, o uso histórico e rotineiro desta expressão já a tornou senso-comum. Quando sua detecção é realizada à partir da determinação das concentrações sangüíneas de lactato, alguns utilizam o termo em inglês OBLA (onset of blood lactate acumulation) ou início do acúmulo sangüíneo de lactato e quando a determinação decorre da análise da resposta ventilatória ao esforço e dos gases expirados, utiliza-se o termo limiar ventilatório.


CEX - DERCAD/RJ è 3. Como identificá-lo?

Através da dosagem da concentração de lactato sangüíneo ou não-invasivamente através da análise da resposta ventilatória ao esforço e dos gases expirados. Mais especificamente, se observa, por exemplo, o ponto a partir do qual a ventilação passa a aumentar exponencialmente em relação ao consumo de O2 ou quando ocorre aumento da fração expirada do O2 (já que a ventilação aumenta em proporção à maior produção de CO2). Outras variáveis derivadas também podem ser utilizadas como o aumento do equivalente ventilatório para o O2 (ventilação pulmonar/consumo de O2) ventilatório ou modificação da inclinação da curva relacionando produção de CO2 e consumo de O2.


CEX - DERCAD/RJ è 4. Qual a sua importância na prática clínica?

O exercício realizado em intensidades acima do limiar anaeróbico causa maior ventilação pulmonar podendo desencadear ou agravar a dispnéia em portadores de cardiopatias ou pneumopatias. Além disto, a acidose muscular causa dor localizada e pode comprometer a motivação para realizar exercícios e em maiores intensidades, o desenvolvimento de acidose metabólica pode aumentar o risco de arritmias cardíacas. Desta forma, se por um lado ainda não termos evidências das potenciais implicações prognósticas do limiar anaeróbico, por outro existe ampla utilidade na determinação da capacidade de realizar exercícios sustentados, que corresponde às situações cotidianas e para a prescrição segura e eficaz de exercícios para portadores de cardiopatias e/ou pneumopatias.

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